Eleito em 2022 com a promessa de reconstruir instituições, promover o bem-estar social e restaurar a credibilidade do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se aproxima do final de seu mandato com várias promessas de campanha que não foram totalmente cumpridas ou sequer saíram do papel. Essa discrepância entre o que foi dito e o que foi feito tem sido explorada por seus oponentes e pode ser um dos maiores desafios para sua possível reeleição em 2026. Críticos apontam que algumas dessas promessas estão ligadas a ideologias de esquerda, como maior intervenção estatal, aumento dos gastos públicos e flexibilização de mecanismos de controle e transparência. Outras são vistas como populistas, com foco na mobilização eleitoral em vez da sustentabilidade a longo prazo. O cientista político Alexandre Bandeira observa uma desconexão profunda entre o discurso eleitoral e a prática administrativa na política brasileira, com as promessas se tornando meros instrumentos de persuasão. Bandeira afirma que a falta de fiscalização e a baixa formação política da sociedade permitem que os candidatos priorizem a retórica em detrimento da execução. Ele acrescenta que o eleitorado brasileiro, muitas vezes preso em debates ideológicos superficiais, acaba aceitando o descumprimento das promessas de campanha. Bandeira sugere que Lula parece ter aprendido que não precisa de ações governamentais efetivas para se candidatar a um novo mandato. Além disso, o
governo Lula intensificou, nos últimos meses, medidas econômicas apelidadas de “kit reeleição”, com o objetivo de aumentar os benefícios sociais e fiscais para atrair eleitores de baixa renda e da classe média. A Gazeta do Povo publicou uma reportagem sobre o tema em outubro de 2025. O “kit reeleição” inclui a expansão de programas sociais, mudanças tributárias e outros incentivos de gastos públicos que, embora populares a curto prazo, são criticados por analistas por aumentar a rigidez orçamentária e elevar o endividamento público – que caminha para cerca de 84% do Produto Interno Bruto (PIB) até o final de 2026 – e por potencialmente comprometer a sustentabilidade fiscal do país já no início de 2027. Enquanto Lula tenta cumprir algumas de suas promessas, a oposição no Congresso planeja explorar as promessas não cumpridas. O deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), líder da oposição na Câmara, declarou à Gazeta do Povo que o objetivo é mostrar ao povo brasileiro que Lula fez promessas que não foram cumpridas, especialmente aos nordestinos, que seriam enganados nas eleições pelo PT e por Lula. A reportagem da Gazeta do Povo listou pelo menos 10 promessas de Lula que não foram cumpridas, mostrando que áreas como segurança pública, transparência, custo de vida e relações de trabalho concentram frustrações que afetam diretamente o eleitorado que o elegeu. O governo federal, em resposta a questionamentos da Gazeta do Povo, afirmou que tem se dedicado, desde o início da gestão, à reconstrução de políticas públicas e sociais, com ações fundamentais em diversas áreas críticas que foram negligenciadas na gestão anterior. O governo destacou que essa estratégia tem apresentado avanços importantes relacionados aos compromissos assumidos nas eleições de 2022. As respostas do governo sobre o andamento de cada promessa também foram detalhadas na reportagem. 1. Picanha e cerveja com preços altos Símbolo do discurso popular da campanha, Lula prometeu, durante entrevista no Jornal Nacional em agosto de 2022, que o povo voltaria a “comer picanha e tomar uma cervejinha”. A promessa foi reiterada ao longo do mandato. Em abril de 2024, em um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, Lula afirmou que não havia esquecido o compromisso de reduzir o preço da carne e da cerveja. No entanto, após uma queda de 10,69% no preço da carne no primeiro ano de governo, os dois anos seguintes registraram altas. Em 2025, o corte da carne teve alta de 2,82%, enquanto a cerveja subiu 5,97%. Em 2024, a picanha teve alta de 8,74% e a cerveja, 4,5%. Os dados são do IPCA, divulgados em janeiro de 2026 pelo IBGE. Uma pesquisa divulgada em abril de 2025 pelo Paraná Pesquisas mostrou que a maioria dos brasileiros (68,4%) enfrenta dificuldades para comprar picanha e cerveja até o final do governo Lula. A pesquisa também apontou que a maioria dos entrevistados (73,7%) percebeu o aumento dos preços nos supermercados. O cientista político Alexandre Bandeira observa que frases como “cerveja e picanha” têm um forte poder de convencimento por tocar no imaginário de alimentação, renda e entretenimento. Bandeira explica que essa naturalidade de prometer e não cumprir tem sido uma constante na política brasileira. 2. Sigilo de 100 anos ainda é possível Outra promessa de Lula foi o fim do sigilo de 100 anos em documentos oficiais, vista como um marco de transparência após o governo Bolsonaro. Lula chegou a derrubar alguns sigilos impostos pelo governo anterior, mas impôs sigilo de 100 anos a informações sobre a agenda da primeira-dama, Janja da Silva. Em 2024, o governo determinou, por meio da Controladoria-Geral da União (CGU), que a presunção automática do “sigilo de 100 anos” deixou de existir, mas, na prática, a medida ainda é possível, já que a Lei de Acesso à Informação (LAI) continua em vigor. A legislação permite que documentos que possam afetar a segurança do governo ou da sociedade sejam mantidos em sigilo. Existem três classificações possíveis: ultrassecreto (25 anos), secreto (15 anos) e reservado (5 anos). O sigilo de 100 anos só pode ser aplicado a informações pessoais de indivíduos. 3. Compromisso de não disputar reeleição foi abandonado Em 2022, Lula prometeu que faria “um mandato só”. Em outubro de 2025, ele afirmou que disputará a reeleição em 2026. A mudança de posição foi vista como incoerência e apego ao poder. Para o cientista político Alexandre Bandeira, a promessa de um único mandato visava construir uma imagem mais favorável ao eleitorado. 4. Ministério da Segurança Pública nunca saiu do papel Durante a campanha, Lula defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública, mas a proposta foi descartada na transição. Em 2024, o então ministro Ricardo Lewandowski tentou incluir na PEC a tentativa de tirar o poder dos estados sobre as polícias e concentrá-lo nas mãos do governo federal. Em 15 de janeiro de 2026, a ministra Gleisi Hoffmann disse que o governo poderá avançar com a criação do Ministério da Segurança Pública ainda neste ano, dependendo da aprovação da PEC da Segurança no Congresso. A iniciativa é criticada por governadores e parlamentares da oposição por representar uma concentração inédita de poder em Brasília, com potencial esvaziamento da autonomia dos estados sobre suas polícias. 5. Promessa de protagonismo internacional fracassou Lula prometeu resgatar o protagonismo internacional do Brasil, mas seu ativismo diplomático não se traduziu em maior influência em decisões globais. O alinhamento com países como China, Rússia, Venezuela e Cuba, e as críticas ao governo dos Estados Unidos após a posse de Donald Trump, colocam sua gestão no alvo de críticas. O deputado federal Paulo Bilynskyj (PL-SP) afirma que a aproximação com Moscou coloca o Brasil em posição vulnerável. Além disso, o fracasso da COP 30, em Belém, selou o declínio da influência internacional de Lula na área ambiental. 6. Plano para regular redes sociais não avança e evita risco à livre manifestação Lula defendeu a regulação das redes sociais desde 2021. Após a vitória eleitoral e os atos de 8 de janeiro de 2023, o tema ganhou força, com o governo argumentando que a circulação de conteúdos falsos e “discursos de ódio” nas plataformas contribuiu para a radicalização política. A regulação foi apresentada como instrumento de “defesa da democracia”. No entanto, as propostas enfrentaram resistência no Congresso. A ausência de critérios objetivos para definir o que seria “desinformação” ou “conteúdo antidemocrático” abre margem para interpretações políticas e para o uso do aparato estatal contra adversários. 7. Projeto da esquerda ambientalista, Autoridade Climática não vingou A criação de uma Autoridade Climática foi uma concessão às alas ambientalistas da esquerda, mas não se concretizou. A proposta previa um órgão com forte poder de coordenação sobre políticas públicas de prevenção, mitigação e reversão das mudanças climáticas. A criação da Autoridade Climática abriu um racha no governo e voltou para a gaveta de Lula. 9. Revisão da reforma trabalhista: promessa sindical abandonada pelo Planalto Lula prometeu uma ampla revisão da legislação trabalhista, mas nenhuma proposta estruturada foi enviada ao Congresso. O tema perdeu espaço na agenda econômica. O Palácio do Planalto evitou detalhar planos legislativos, destacando indicadores positivos do mercado de trabalho. 10. Direitos para trabalhadores de aplicativos seguem indefinidos A regulamentação do trabalho por aplicativos foi tratada como prioridade, mas o processo terminou sem consenso. O deputado Guilherme Boulos (PSOL) reafirmou o compromisso com a regulação. A proposta do governo propõe maior vínculo trabalhista, remuneração mínima, seguro de acidentes e transparência dos algoritmos, mas uma reunião entre o Planalto e o Congresso foi adiada. Fim da escala 6x1 e transporte gratuito: promessas para 2026 têm alto apelo e baixa viabilidade A proposta de acabar com a escala 6x1 ganhou centralidade no discurso do governo, mas enfrenta resistência do setor produtivo. A ideia de transporte público gratuito também foi impulsionada, mas é vista como inexequível em escala nacional. Isenção do IR e Gás do Povo: agenda da esquerda com custo para a sociedade A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o novo vale-gás foram aprovados e integrados ao “kit reeleição”. Ambas as medidas atendem a uma agenda tradicional da esquerda e geram custos para o orçamento público. A mudança na tabela do Imposto de Renda foi enviada ao Congresso no contexto pré-eleitoral. O novo vale-gás garante a gratuidade do botijão para famílias de baixa renda. Parlamentares da oposição criticam o benefício por seu caráter assistencialista e eleitoral.
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Esta matéria foi adaptada e reescrita pela equipe editorial do TudoAquiUSA
com base em reportagem publicada em
Gazetadopovo
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