A economia é uma disciplina desafiadora, repleta de nuances. John Maynard Keynes afirmava que um bom economista precisa possuir diversas habilidades: deve ser matemático, historiador, estadista e filósofo, equilibrando cada um desses papéis. Ele precisa entender elementos simbólicos e se comunicar de forma acessível, integrando particularidades ao contexto geral e navegando entre o abstrato e o concreto com fluidez. É essencial analisar o presente à luz do passado, com um olhar voltado ao futuro. Nenhum aspecto da natureza humana deve ser ignorado em suas análises, que devem ser ao mesmo tempo desinteressadas e práticas, como um artista distante e, em outros momentos, tão próximo da realidade quanto um político. A economia, portanto, é um sistema intrincado. James Glattfelder, autor de 'Decoding Complexity: Uncovering Patterns of Economic Complexity', observa que sistemas complexos apresentam características que não podem ser deduzidas a partir de suas partes isoladas. Em outras palavras, a teoria da complexidade busca entender como o comportamento macroeconômico surge da interação entre os componentes do sistema. A identificação dos elementos do sistema econômico é crucial, mas ainda mais importante são os pressupostos que definem as relações entre esses elementos. Vale destacar a importância das relações e não das entidades isoladas, como é frequentemente abordado na economia vulgar. Hegel já alertava que quando as formas são vistas como determinações
fixas, elas perdem a vida. A visão metafísica e epistemológica da corrente dominante tende a encobrir a ontologia do econômico, oferecendo uma perspectiva da estrutura e das conexões da sociedade capitalista. Este paradigma considera a sociedade onde a ação econômica acontece como uma soma de indivíduos interligados por vínculos externos. As teorias econômicas tradicionais estão saturadas de questionamentos binários, como 'é isso ou aquilo?'. Peço ao leitor que permita uma invocação de Hegel por parte dos humildes economistas para desafiar esse viés metodológico. Na 'Introdução à Ciência da Lógica', Hegel afirma que quando as formas são vistas como separadas, elas se tornam mortas, e a vitalidade que as anima reside na unidade concreta. O economista Brad Delong ressalta que, embora os economistas da corrente predominante não careçam de dados, esses dados são frequentemente forçados a se encaixar em narrativas mecânicas, seguindo categorias previamente definidas em manuais de econometria. Para aqueles que tiveram a paciência de ler até aqui, é válido destacar que testar hipóteses em econometria pode ser útil, desde que contribua para uma compreensão das relações econômicas. Não é suficiente escolher uma variável independente e uma dependente, uma vez que a simplória correlação entre elas não implica causalidade. Infelizmente, essa informação é frequentemente omitida pelos especialistas. A estatística não deve ser reduzida à probabilidade de um evento ocorrer, e uma alta correlação não deve ser confundida com a chance de uma variável influenciar a outra. No seio da 'Confraria dos Amantes da Ciência Triste', a presença de um economista renomado é suficiente para validar uma pesquisa de dados, perpetuando uma rotação de informações que, em última análise, não significam nada. André Lara Resende observa que para os economistas da escola neoclássica marginalista, a realidade foi deixada de lado em prol de modelos matemáticos. Há décadas, a pesquisa acadêmica se desenvolve dentro de um modelo de referência canônico, onde pequenas variações são inseridas para gerar resultados específicos, ignorando aspectos da realidade que não se encaixam na teoria. O debate acadêmico, muitas vezes, ocorre em um universo conceitual paralelo, utilizando uma linguagem inacessível para muitos. A complexidade e a obscuridade da linguagem científica conferem uma aura de autoridade aos que falam em nome do grupo, moldando a mídia e perpetuando as ideias vigentes. A concorrência entre os cursos de Economia se assemelha a uma corrida desenfreada entre aqueles que mais utilizam econometria, realizando pesquisas de dados e testes de hipóteses sem considerar a realidade econômica e social das pessoas. O novo, muitas vezes, é apenas uma versão disfarçada do antigo, enraizado nos métodos marginalistas do século XIX, agora complementados por softwares e Inteligência Artificial. Desde março de 2025, o real tem se valorizado. Desde 1999, o Brasil adota um regime de câmbio flutuante, com contas de capital completamente abertas e metas de inflação definidas. Nos modelos, a relação entre a taxa de câmbio e a taxa de juros permanece obscura. Perguntamos: a relação entre câmbio e juros poderia estar ligada à captação de Bonds de empresas nacionais e do Tesouro Nacional em moeda estrangeira? Isso não tem relação com investimentos diretos produtivos? E quanto ao diferencial entre as taxas de juros americana e brasileira? Não seria isso relevante para operações de carry trade? Como Delfim Netto colocou, 'A economia não é uma ciência, é uma religião com vários deuses e várias igrejas.'
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Esta matéria foi adaptada e reescrita pela equipe editorial do TudoAquiUSA
com base em reportagem publicada em
Cartacapital
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